EXAME ANTROPOMÉTRICO, ESTADO DE NUTRIÇÃO E
SUA RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
Profa. Dra. Claudia Cezar
A antropometria é o elo entre as dimensões da Saúde e da Educação porque para realizar a avaliação do estado nutricional, além dos testes bioquímicos e provas funcionais, se analisa primeiramente as dimensões corporais por antropometria. O exame antropométrico tem papel essencial tanto no diagnóstico da desnutrição quanto da obesidade, por ser prático, de baixo custo e por identificar precocemente qualquer piora do estado nutricional.
A antropometria, antes da Cineantropometria ser reconhecida como ciência, pertencia à Biometria, ramo da Biologia que estuda as características mensuráveis dos seres vivos, utilizando análises matemáticas e estatísticas. A Biometria teve origem na Inglaterra com Galton, em 1901, sendo historicamente um instrumento de investigação e prática profissional na área médica que, juntamente com a instituição militar, influenciou fortemente a Educação Física. No Brasil, o Curso Superior de Formação em Educação Física passou a oferecer a Biometria como disciplina obrigatória no final da década de 1930, com objetivo de orientar a seleção desportiva, avaliar a saúde e a aptidão física.
Pela legislação vigente os escolares deveriam ser submetidos anualmente a dois exames biométricos, limitados à determinação da estatura e do peso, no início e no final do ano letivo. Tais ações foram calcadas nos princípios da medicina social de índole higiênica, por isso o médico higienista que atuava na instituição escolar para assegurar a saúde e o vigor dos corpos dos estudantes, aumentar a reprodução e a longevidade dos indivíduos, incrementar a população do país e melhorar os costumes e a moral pública, ações de saúde individual que extravasavam os limites pedagógicos. O médico higienista tinha papel destacado no ambiente escolar, considerado “autoridade” devido ao conhecimento biológico que detinha e orientava, na época, a função do componente curricular. Era este profissional que realizava a biometria das crianças matriculadas na escola e deveria alertá-las sobre seu estado nutricional, quando necessário. Foi em 17 de abril de 1939 que no Brasil pelo Decreto-lei número 1212, o professor de educação física foi autorizado a tomar o peso e a estatura de seus alunos para ampliar o número de profissionais que analisariam o crescimento e estado nutricional dos pequenos.
Por que o exame bio-médico/biométrico foi retirado das escolas?
Mesmo após o professor de educação física ser autorizado a tomar o peso e a estatura os alunos ainda eram submetidos ao exame médico, realizado na própria escola, para serem considerados aptos, ou não, a participar das aulas práticas. A ampliação do número de escolas diminuiu proporcionalmente o número de médicos disponíveis para atendimento, que pelo excesso de trabalho, em muitas regiões realizavam os exames no mês de abril, bastante tempo após o início do ano letivo, retardando o programa de educação física, atrapalhando o planejamento de ensino e prejudicando o aproveitamento dos discentes.
Embora bem fundamentada, legislativa e cientificamente, a biometria não foi incorporada à prática político-pedagógica destes professores na escola, provavelmente porque a)os dados de peso e estatura dos escolares ficavam sem utilidade para a “prática pedagógica”; b)a prática profissional ocorreu sem reflexão adequada sobre o significado da biometria; c)ausência, no currículo do ensino superior, sobre noções básicas de saúde e fisiopatologias; d)formação acadêmica fragmentada, eminentemente prática, sem articulação ou sentido entre as diferentes esferas de conhecimento.
Em São Paulo, no dia 11 de março de 1989, na página 9 do Diário Oficial do Município a normatização 1212 de 1939 é retomada em função da retirada do exame médico escolar porque o Departamento de Saúde Escolar (DSE) saiu da Secretaria Municipal de Educação para ser incorporado na Secretaria de Higiene e Saúde a fim de integrar estes serviços e oferecer, à população, igualdade de acesso a um sistema de saúde regionalizado e hierarquizado. Porém, não foi ensinado, ou explicado, para os educadores que as medidas de peso e estatura são suficientes para avaliar o estado de nutrição de uma pessoa.
Em São Paulo o decreto 47.715, de 22 de Setembro de 2006, orienta que a escola é ambiente adequado para promover ações educativas que visem diminuir a incidência e a prevalência da obesidade entre crianças e adolescentes. Como a obesidade passou a ser um problema mundial e os dados brasileiros estão defasados, se faz necessário identificar sua ocorrência na população infanto-juvenil o mais rapidamente possível, para que se possam estabelecer propostas políticas de saúde pública condizentes com a realidade. O projeto AENE foi criado na USP justamente visando preencher as lacunas aqui apontadas e oferecer subsídios para que os professores tornem-se pesquisadores proficientes em avaliar, encaminhar e acompanhar a evolução dos alunos que apresentarem alguma alteração do estado nutricional. Nossa pretensão é que estes professores-pesquisadores contribuam também para que se mapeie a obesidade e a desnutrição entre os escolares e que se erradique, o mais brevemente possível, mais esta epidemia, infelizmente tão comum entre a população mais frágil. Professores nós contamos com o comprometimento de vocês!
FONTE: Livro de Resumos do I Simpósio AENE: Uso do exame antropométrico para identificar alunos com obesidade ou desnutrição, pg 05 a 08, realizado em 5 de setembro de 2007 no C.E.U. Aricanduva, São Paulo/SP